Mãe
Em 2005, minha mãe começou a sentir umas dores no braço e perna direita. Essa dor foi piorando até que ela ficou completamente sem movimento do braço direito, não podia colocar peso na perna, e tinha dores horríveis. Ela tinha lá um convênio mais ou menos, e começou a via sacra dos exames e consultas. Cada um dava um diagnóstico diferente, todos medonhos. O negócio estava tão sério, que um dos pés estava ficando ligeiramente deformado, e teve um médico que disse que "essa doença é assim mesmo, a senhora vai controlar a dor com corticóide, mas vai ter membros deformados". Imagina quão arrasada minha mãe ficou, sem falar que, como o médico predisse, a dor só era controlada ( e não totalmente ), com injeções de corticóide.
Nessa época, eu me vi em papos-de-aranha, o que fazer? Largar o emprego que consegui com tanta dificuldade e ir pra lá cuidar dela? Quanto tempo levaria? Meu irmão não tem a menor paciência com doentes, mas minha cunhada é uma santa, e ela me ligou e disse que até que encontrassem um diagnóstico sério e um tratamento, não tinha como eu ajudar. Minha viagem para os EUA estava inteirinha paga, mas eu estava a ponto de cancelar tudo, perder a dinheirama toda, pra poder voltar ao Brasil e ficar com a minha mãe no Natal.
Em Novembro, minha cunhada soube atravéz de um antigo professor da faculdade de um médico que era uma sumidade no diagnóstico e tratamento de doenças reumáticas. Ele só atendia particular, não estava aceitando novos pacientes, e a consulta custava 600 reais, mas mesmo assim minha cunhada insistiu, implorou, foi lá pessoalmente, acabou conseguindo que minha mãe fosse atendida. Ele diagnosticou minha mãe com uma forma de artrite reumatóide, iniciou um tratamento que, segundo ele, ía deixar a doença sob controle. Eram dois remédios que, juntos, custavam 1400 reais por mês. Em um mês ela pôde parar com as injeções de corticóide, foi recuperando os movimentos, pôde até voltar pro apartamento dela.
Fui para os EUA, mas todos os dias pensava: eu deveria ter aproveitado que minha mãe está melhor e ir para o Brasil, levá-la pra visitar a família em Santa Catarina, levá-la pra Caldas Novas ( dizem que é ótimo para quem tem doenças reumáticas ), ficar com ela. Prometi que assim que o médico deixasse, ela viria para a Holanda e eu tiraria um mês inteiro de férias para ficar com ela.
Em julho eu ía trocar de emprego, ela já estava praticamente boa, falei para ela consultar o médico e ele liberou-a para vir para a Europa, desde que ela tomasse os remédios certinho. E ela embarcou trazendo uma sacola de remédios, duas caixas com ampolas de corticóide para o caso de uma crise aguda ( Alice se ofereceu para dar a injeção, caso precisasse ), eu fiz seguro de viagem para ela, e fui pegá-la no aeroporto rezando para tudo correr bem.
Quando a vi, levei um susto, mesmo 8 meses após ela parar com os corticóides, ela ainda estava bem inchada, bastante diferente, mas isso não importava, minha mãe estava finalmente aqui! Ela tinha muita vontade de vir conhecer a minha casa, meus gatos, ver como eu estava vivendo, as flores, tudo... e eu estava podendo realizar o sonho dela! Meu irmão havia me preparado para a depressão e "ranzinzisse" dela, mas aqui comigo ela estava sempre sorrindo, sempre alegre, tudo era gostoso, tudo estava bom. Andamos tanto que ambas emagrecemos, fomos a Amsterdam, levei-a à Itália, ela se emocionou com a terra dos antepassados dela! E meses depois, no Natal, eu fui ao Brasil.
No mês passado, tanto tempo depois, ela voltou a ter dores, dessa vez nas costas. No telefone se percebia que ela estava com dor. Novos exames, mais remédios, nada fazendo efeito, o diagnóstico: um problema na coluna que só pode ser resolvido cirurgicamente. Quis ir ao Brasil, meu irmão me disse para esperar e, se algo complicasse, aí então eu iria para ajudar minha cunhada. Ele continua absolutamente sem paciência com doentes. E minha cunhada continua uma santa.
Minha mãe operou essa semana, tudo correu bem, a dor se foi, ela já está andando, saiu do hospital ontem.
E esse é mais um dos dilemas de quem vive no exterior: e se acontecer algo com alguém querido no Brasil, o que fazer? Eu, depois desse episódio, fiquei com mais medo ainda. Se minha mãe tiver uma doença terminal, eu vou sofrer como o quê, pois eu não posso simplesmente largar tudo e ir para o Brasil cuidar dela. Eu preciso trabalhar, temos essa casa carésima para pagar, e só com o salário de um não dá. Posso tirar férias, talvez uma licença não remunerada de uns 3 meses, mas isso é tudo.
Depois desse novo susto, e talvez com a maturidade dos 3.5, vejo que voltar ao Brasil sempre que possível, de preferência todos os anos para passar o Natal, é imprescindível para a minha felicidade. A gente não sabe até quando aqueles que amamos estarão conosco, estarão com saúde. Los Angeles, Cancun, até Bora-Bora estarão sempre lá ( a não ser que o tal aquecimento global venha mais rápido do que esperamos ), e com o tempo, ainda visitarei os lugares que sempre sonhei: Polinésia Francesa, Austrália, Fiji... Mas nesse momento, visitar esses lugares não me faria feliz, PRECISO ir ao Brasil e curtir minha família enquanto posso...